Coleção pessoal de schmorantz

1 - 20 do total de 82 nesta coleção

Meus Poemas

Meus poemas vão sendo largados
na beira das estradas onde passo,
ao luar do sonho, às flores comuns
das estradas desertas, das pedras
esculpidas pelas maresias,
ao campo que se alonga até o mar.

Talvez eu tenha dado os passos certos,
talvez encontre em cada um deles,
a estrada do sonho, os momentos que vivi.
Talvez recupere nas curvas do caminho,
velhos poemas que se perderam na poeira,
em amareladas folhas rasgadas.

Talvez encontre em meio às flores,
os poemas que fiz e não deixei nascer,
poemas imaginados que nunca ganharam corpo,
numa estrada inventada para atravessar o tempo.

Poemas abandonados, poemas espalhados,
na estrada da imaginação, onde ninguém pisa,
poemas passageiros desta longa viagem,
abandonados versos, lembranças escritas,
de quem um dia pretendeu ser poetisa.

Sônia Schmorantz

Agora chove...

Chove neste momento,
o mundo é miragem na vidraça,
tem água na paisagem e
alma se enclausura com cuidado.
A chuva apagou as estrelas,
formou um lago de memórias,
inquietudes, casa vazia...
Chuva cai e oculta tudo lá fora,
bate no vidro e traz saudade,
cai musicando nos telhados,
reverenciando a madrugada.
É chuva que cai na alma,
é o choro do vento na rua,
vagarosas horas de nostalgia,
acinzentando o peito,
quando a natureza entristece.

Sônia Schmorantz

De que mais preciso?

De que mais preciso
se ao olhar da janela
árvores alinhadas perfilam-se
em busca do sol,
deixando penetrar os raios,
como rastros iluminados
no verde escuro da mata?
Árvores galgando montes,
que do alto observam impávidas,
a vida a correr ao longo do caminho,
divididas pelo mesmo raio de sol.
De que preciso
se da janela sinto o aroma,
dos eucaliptos à beira da estrada,
de onde partem os pássaros
colorindo pedaços do céu,
brincando sonoras no arrebol,
enquanto gemem as folhas,
com a brisa das tardes moribundas,
suspirando de amores ao sol?
De que mais preciso?
Não preciso...
Tenho comigo o meigo perfume
das tardes que expiram,
do mar que se espraia,
das murmurantes árvores,
lascivas, entregues aos raios de sol,
revoadas de pássaros e o amor
de um homem apaixonado,
que me abraça enamorado,
a olhar pela mesma janela...

Sônia Schmorantz

Outono

O sopro do vento esfria as noites,
mas as tardes continuam mornas,
e o mar espraia-se preguiçoso
nas pedras estendidas da praia.

Paisagem que reflete a vida,
encurta os dias, amplia as noites
e a vida como uma leve pluma,
com a brisa segue meio perdida.

Amarelecidas agora rolam as folhas
no chão de uma paisagem outonal,
as árvores nuas, sem mais flores,
são serenas sombras no madrigal.

Como uma réstia de sol no mar,
faz-se da vida um entardecer,
Folhas e flores vão descansar,
os sonhos serão um rio a correr.

Sônia Schmorantz

Desempregado

Eu conheço o medo de ir embora,
não há como esquecer esta noite,
as lágrimas que vi cair dos olhos,
dos amigos que choraram ao sair,
deixando seus sonhos pelo açoite.

Realidade cotidiana de quem trabalha
ser tirado o seu pão, o seu emprego,
desencorajado, coração esfacelado,
é mais alguém a ficar desempregado.

A vida anda mesmo em barco frágil,
difícil prever de quantas vítimas
se alimenta este capital de apetite voraz,
que devora vidas, devora sonhos,
hábil em impor a alguns o desatino,
um desrespeito que a ninguém agrava,
mas que muda tantos destinos…

Vi chorar os meus amigos ao sairem,
lágrimas inesperadas, surpresa sombria,
sonho, esperança, futuro,
escorrendo, diluídos num eco seco,
transformando a vida de repente.

Assustado, desempregado, resignado,
que importam as palavras de um poema
se a desgraça atingiu o homenageado?

Sônia Schmorantz

Cheiro do Vento, cheiro do mar...

O cheiro do vento brota das folhas,
que cobrem a trilha que leva ao mar,
cheiro doce do mar quando a água
dança numa gostosa tarde de sol,
subindo nas pedras e explodindo no ar.

Sonhando tolices, a gente segue o caminho,
borboletas também seguem flores pela trilha,
beirando suas vidas no caminho do mar,
onde o cheiro do vento tem cheiro de amar,
e sopra as memórias no imenso azul da ilha.

São os ventos do fim de mais um verão,
balançando a palha seca dos coqueiros,
tem o cheiro gostoso do mato, da maresia,
cheiro de poesia pairando no pensamento,
este passageiro clandestino em um veleiro.

Cheiro do vento espalhando o amor no ar,
vida passando no meridiano do coração,
seguindo os rastros da memória na trilha
que leva ao mar, que leva embora a estação,
e a vida vai ganhando o perfume do mato
nas tardes serenas e calmas desta ilha...

Sônia Schmorantz

Dia Comum

Se esvai o dia comum
nada especial aconteceu
tenho as mesmas cicatrizes,
sobrou um sorriso cansado,
um distante abraço,
uma alma junto à minha.

O dia irá amanhecer,
o sol haverá de inundar a vida
para dizer que ainda não morri,
que sou como a maré,
sempre voltando e voltando.

Acorda-me um rufar de asas no telhado,
a intraduzivel conversa das pombas,
quando arrulham aos pares nas manhãs,
tecendo o tempo, os dias e as horas.

Entra o dia pela janela sem persiana,
preciso aprender alguma canção,
quebrar o silêncio e não adormecer,
é este perene cotidiano,
que me traz de volta pela mão...

Sônia Schmorantz

Melancolia

Melancolia estranha visita,
que afunda os pensamentos,
deixando o tonto o silêncio,
bailando à sorte um momento.

Melancolia vem não sei de onde,
como a chuva que cai na rua,
solidão imensa que molha o chão,
que embala as noites sem lua.

Melancolia, tristeza preguiçosa.
como lagartixas na varanda,
paradas, suspiram e esperam,
como sombras sem esperança.

Sinto o gosto do singelo cansaço,
da solitária escrita, da monotonia,
da fragilidade triste que não dói,
que no coração poeta faz moradia.

Melancolia ridícula dentro de mim,
é saudade do que não existe,
é a melancolia da chuva...

Sônia Schmorantz

Chuva na tarde

Tarde mormacenta, nuvens escuras,
a terra docemente implora a chuva fina,
a tarde quer chorar seu silêncio.

Chuva para lavar as ruas vazias,
tirar a poeira dos olhos como o pranto
que vai molhando os sonhos da alma.

Os pingos dançam nas folhas, fazendo piruetas,
ondulando, salpicando brilhos de nostalgia,
balançam as folhas numa envergonhada alegria.

Trêmulas as folhas se agitam e voam,
ressoam os pingos como música nas calçadas,
sossega-me a alma o perfume da terra molhada.

Chuva que penetra mansamente o cio da terra,
espraiando-se em um compasso sincopado,
cantarolando sozinha um poema inesperado.

Sônia Schmorantz

Fim de Verão

Chegam as primeiras chuvas anunciando
o fim de um tempo escaldante de verão.
Distanciam-se os dias de luar e cio,
fica o canto, a vibração, a nostalgia,
fragmentos de risos, sonhos e ilusão.

A praia sem a obrigação de ser verão,
serenamente perde-se na linha do horizonte.
Os dias continuarão mornos e ensolarados.
E ao fim da tarde o sol fará sua despedida
em coloridos raios até morrer atrás do monte.

Um vento errante há de vagar sobre a praia,
anunciando teatralmente o fim da estação,
soprando emoções quebradas na areia,
como a despedida dos amores de verão.

Termina temporada, termina o verão,
Recolhe-se a rede, o guarda sol, a esteira,
Recolhem-se as sereias e musas do mar,
Fim de viagem, morre a estação derradeira...

Sônia Schmorantz

É preciso

É preciso abrir as portas da alma,
permitir a entrada de um pouco de céu,
deixar passar as brancas nuvens,
sombras serenas brincando ao léu.

É preciso a serenidade do vazio,
dispersar-se como areia nas ondas,
pairar como aves na beira dos cais,
deixar-se só e na alma mergulhar.

É preciso habitar a própria alma,
viajar entre a tempestade e a calmaria,
dispersar-se feito areia, vento, água,
só então renascer para mais um dia.

Sônia Schmorantz

Rumo ao Mar...

Sol desperto no céu espelha-se na água
da lagoa e do mar, pontilhando de dourado
pequenas gotas bailarinas suspensas no mar.

Calor do sol, brisa suave no rosto,
segue o barco balançando a destino do mar,
transporta sonhos de um lado para outro,
onda branca e inquieta que não pára,
a encantar-se com a beleza de suas margens.

Doçura impetuosa das marés a subir no entardecer,
gotas cintilantes desafiando as fortaleza das pedras,
enquanto os barcos crepitam nas ondas azuis,
ida e volta, chegada e partida de pequenos cais.

Corre a água cristalina a buscar o seu destino,
palavras são veleiros que viajam nesta onda,
vão partindo com o vento como quem canta,
canto da ave, canto da pureza do mar.

Segue o barco neste mar entre montanhas,
cortando as ondas que soluçam baixinho,
canção do mar, plena de magia e poesia,
que nesta hora até os pássaros silencia.

Água, sal e vida, hora da despedida,
segue o barco a sua rota, ficamos aqui no cais,
de tantas belezas avistadas fica um quase poema,
vago como a luz que reinventa o azul do mar,
no verde-mar-poema que ficou na margem.

Sônia Schmorantz

A poesia virou confete

É na areia que está o meu carnaval,
é no mar que estão as serpentinas,
brancas ondas a quebrar na praia.
Aqui encontro a magia da poesia,
vestindo fantasia que a luz do sol irradia.

No meu carnaval não tem máscaras!
Tem rostos, tem corpos bronzeados
desfilando naturais alegorias na praia,
que vem do mar, que vem da areia
desfilando como netunos e sereias.

É a palavra que brinca na praia,
no balanço das ondas faz o samba enredo,
o carro abre alas é um navio pirata
assaltando um coração enfeitado
por poesia que na areia virou confete.

Sônia Schmorantz

Agora é Carnaval

Agora tudo que se vê
são corações pulsando como bateria.
Vem para misturar o juízo,
para disfarçar a solidão
no bloco da eterna esperança.
Fantasias e ilusões,
onde estrelas são confetes
e o carnaval também se faz poesia.
Vem o carnaval escondendo a tristeza
atrás de máscaras coloridas,
fascinio alucinante de liberdade,
que rompe os laços e
num passe de magia transforma
gente comum em reis e rainhas.
Olhando de longe as alegorias
o mundo agora é uma fantasia, e
Em meio à explosão do ritmo,
do perfume, suor e alegria,
desfila agora o bloco das letras,
tamborilando esta patética poesia.

Sônia Schmorantz

Seres Anônimos

Por aqui, nesta ilha,
circulam estes seres anônimos,
heróis da sua própria história,
poetas de sonhos, cada qual com sua expressão,
afinados nas suas inquietudes.
Seres olhados como espetáculo de um teatro
mambembe a beira das praias,
rostos estranhos, desconhecidos
em fantasias coloridas que passam
para lá e para cá, alheios ao que acontece.
Seres anônimos transeuntes,
expressões cansadas de uma silenciosa marcha.
Que fazem surgir submersos pensamentos.
A alma inquieta busca por seu poema
com trunfos reservados à gente comum,
estes seres calados, incógnitos,
que sequer se sabem anônimos
retratados em desconhecidos versos...

Sônia Schmorantz

Cada dia

O tempo se esfumaça
na janela em que se espreita a vida.
O alaranjado entardecer traz nostalgia
como se a vida também desaparecesse
com o sol ao final de cada dia.
Não se vive uma história sem amor
Não se faz um caminho sem coragem
Não se passa os dias em branco.
Há em cada dia uma chegada e uma partida,
coisas que estão além do bem e além do mal.
Cada dia tem sua dose de ironia e de amor
sua dose de rotina e sua dose de humor,
mas quando chega ao final morrem com ele
tudo que se passou, morremos nós.
Ficam as lembranças do que marcou,
o resto fica num labirinto de imagens,
engavetados na memória, sem uso...
Cada dia amanhece e anoitece à mesma hora,
cada um com seu destino ou desatino,
entre um e outro há o tempo que não volta.
O tempo parece brincar entre acasos e ocasos,
dias compridos, coisas novas e coisas velhas.
Depois desarruma tudo e vai embora...

Sônia Schmorantz

Brincar de rimar

Eu quero qualquer coisa mágica,
qualquer coisa azul,
qualquer forma de ser feliz.
Não quero acordar cedo,
quero prolongar o sonho mesmo
que a história seja trágica.
Não quero sonhos falsos,
Não quero destino já traçado,
Não quero uma vida básica.
Não quero restos ou pedaços
Não quero olhar o relógio,
Não quero um tempo sádico.
Quero valer um mar azul
uma estrela na varinha de condão
um poema de efeito mágico,
que seja fácil, que seja simples,
nem litúrgico, nem letárgico,
mas que fale ao coração...

Sônia Schmorantz

Verão na Ilha

Sobre a ilha um ardido verão,
lassidão dos corpos largados nas marés,
sol que toca na alma da terra,
longos sóis, longos dias na ilha da magia.
É verão, suor sem matéria, cheiro da maresia,
o sol pintando de vermelho os corpos na areia.
É preciso entrar no mar, mergulhar nos pensamentos,
neste mar descompassado, imprevisível, amoroso
que cerca a ilha num verão que devora.
O mar azul em pedaços e brancas espumas
acelera as velas que deslizam, desenhadas no céu.
Dourados corpos passeiam no intenso calor
pintando o quadro da ilha verão,
tela cheia de cor, calor, paixão
Cor do verão que a tarde mormacenta devassa,
e este poema distraído mal traça.

Sônia Schmorantz

Grão de areia
Entre milhões de palavras
como um grão de areia
está um invisível poema.
Um poema que nunca se escreveu.
Um poema feito grão de areia,
talvez parte de uma construção,
talvez não...
Pequeno grão de areia
em silêncio na beira do mar,
que vai sendo soprado
para um destino incerto,
talvez o mar, talvez o deserto.
Palavras que ao vento se vão
como um pequeno grão a rolar na praia,
procurando a concha da sua vida.
Não tenho pressa, sou como este grão
também sigo a rolar na areia
até renascer na praia ou encontrar o
poema da minha vida...

Sônia Schmorantz

Notívaga

Sou notívaga, perambulo nas madrugadas
como as corujas, empertigadas, em cima dos muros.
Ouço os sons da madrugada, os que estão fora e
os que tenho dentro de mim.
Silêncios quebrados por sons de pássaros noturnos,
pessoas que passam, chave na fechadura, criança que chora.
Cortam a madrugada o choro dos amores mal resolvidos,
Os sonhos ainda não vividos, o som de risos perdidos na memória.
A madrugada está cheia de sons, música transcendental, natural
que não precisa de cordas ou teclas, vem no assobio do vento
ou nos acordes dos pingos de chuva na velha calha.
Não sei que hora o relógio marca, sei que estou acordada,
que o poema não deixa de ser uma oração silenciosa,
será que Deus ouve melhor nessa hora?
Resta depois esta vontade de chorar diante da beleza,
Resta esta súbita saudade de tudo e de nada,
até que os sons se esmaeçam enternecidos no sono
que finalmente chega...

Sônia Schmorantz
Páginas:  1 2 3 4 5   Próxima