Coleção pessoal de schmorantz

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Seres Anônimos

Por aqui, nesta ilha,
circulam estes seres anônimos,
heróis da sua própria história,
poetas de sonhos, cada qual com sua expressão,
afinados nas suas inquietudes.
Seres olhados como espetáculo de um teatro
mambembe a beira das praias,
rostos estranhos, desconhecidos
em fantasias coloridas que passam
para lá e para cá, alheios ao que acontece.
Seres anônimos transeuntes,
expressões cansadas de uma silenciosa marcha.
Que fazem surgir submersos pensamentos.
A alma inquieta busca por seu poema
com trunfos reservados à gente comum,
estes seres calados, incógnitos,
que sequer se sabem anônimos
retratados em desconhecidos versos...

Sônia Schmorantz

Cada dia

O tempo se esfumaça
na janela em que se espreita a vida.
O alaranjado entardecer traz nostalgia
como se a vida também desaparecesse
com o sol ao final de cada dia.
Não se vive uma história sem amor
Não se faz um caminho sem coragem
Não se passa os dias em branco.
Há em cada dia uma chegada e uma partida,
coisas que estão além do bem e além do mal.
Cada dia tem sua dose de ironia e de amor
sua dose de rotina e sua dose de humor,
mas quando chega ao final morrem com ele
tudo que se passou, morremos nós.
Ficam as lembranças do que marcou,
o resto fica num labirinto de imagens,
engavetados na memória, sem uso...
Cada dia amanhece e anoitece à mesma hora,
cada um com seu destino ou desatino,
entre um e outro há o tempo que não volta.
O tempo parece brincar entre acasos e ocasos,
dias compridos, coisas novas e coisas velhas.
Depois desarruma tudo e vai embora...

Sônia Schmorantz

Brincar de rimar

Eu quero qualquer coisa mágica,
qualquer coisa azul,
qualquer forma de ser feliz.
Não quero acordar cedo,
quero prolongar o sonho mesmo
que a história seja trágica.
Não quero sonhos falsos,
Não quero destino já traçado,
Não quero uma vida básica.
Não quero restos ou pedaços
Não quero olhar o relógio,
Não quero um tempo sádico.
Quero valer um mar azul
uma estrela na varinha de condão
um poema de efeito mágico,
que seja fácil, que seja simples,
nem litúrgico, nem letárgico,
mas que fale ao coração...

Sônia Schmorantz

Verão na Ilha

Sobre a ilha um ardido verão,
lassidão dos corpos largados nas marés,
sol que toca na alma da terra,
longos sóis, longos dias na ilha da magia.
É verão, suor sem matéria, cheiro da maresia,
o sol pintando de vermelho os corpos na areia.
É preciso entrar no mar, mergulhar nos pensamentos,
neste mar descompassado, imprevisível, amoroso
que cerca a ilha num verão que devora.
O mar azul em pedaços e brancas espumas
acelera as velas que deslizam, desenhadas no céu.
Dourados corpos passeiam no intenso calor
pintando o quadro da ilha verão,
tela cheia de cor, calor, paixão
Cor do verão que a tarde mormacenta devassa,
e este poema distraído mal traça.

Sônia Schmorantz

Grão de areia
Entre milhões de palavras
como um grão de areia
está um invisível poema.
Um poema que nunca se escreveu.
Um poema feito grão de areia,
talvez parte de uma construção,
talvez não...
Pequeno grão de areia
em silêncio na beira do mar,
que vai sendo soprado
para um destino incerto,
talvez o mar, talvez o deserto.
Palavras que ao vento se vão
como um pequeno grão a rolar na praia,
procurando a concha da sua vida.
Não tenho pressa, sou como este grão
também sigo a rolar na areia
até renascer na praia ou encontrar o
poema da minha vida...

Sônia Schmorantz

Notívaga

Sou notívaga, perambulo nas madrugadas
como as corujas, empertigadas, em cima dos muros.
Ouço os sons da madrugada, os que estão fora e
os que tenho dentro de mim.
Silêncios quebrados por sons de pássaros noturnos,
pessoas que passam, chave na fechadura, criança que chora.
Cortam a madrugada o choro dos amores mal resolvidos,
Os sonhos ainda não vividos, o som de risos perdidos na memória.
A madrugada está cheia de sons, música transcendental, natural
que não precisa de cordas ou teclas, vem no assobio do vento
ou nos acordes dos pingos de chuva na velha calha.
Não sei que hora o relógio marca, sei que estou acordada,
que o poema não deixa de ser uma oração silenciosa,
será que Deus ouve melhor nessa hora?
Resta depois esta vontade de chorar diante da beleza,
Resta esta súbita saudade de tudo e de nada,
até que os sons se esmaeçam enternecidos no sono
que finalmente chega...

Sônia Schmorantz

Nos caminhos da Ilha

Da janela vejo ruas sem nome
casas coloridas abrigadas em montanhas,
da janela sinto a brisa e cheiro dos eucaliptos,
o cheiro das ruas sem nome
onde vento balança verdes folhas
e nascem flores em pedras.
Estas ruas tem silêncios mágicos
como poemas ainda imaginados,
acabam no pé da montanha
mas seguem a caminho do mar...
Ruas de casas pequeninas e pequenos jardins.
Ruas sem nomes, sem números
que da janela vejo encantada
enquanto as flores crescem
agarradas às saliências das duras pedras.
O verão pinta o quadro
e eu aqui, vejo
pela janela emoldurado...

Sônia Schmorantz

Amo

Amo olhar o imenso areal parado no tempo,
Gaivotas sobrevoando, asas largas debatendo,
riscando o céu em vôos ignorados...
Amo os pássaros que semeiam cantos,
que vem em bandos, depois partem não sei para onde.
Mas deixam a paz e aos ouvidos o insistente canto.
Amo o som do mar, alegria vadia a invadir a areia,
passando, fluindo, cantando, sem parar...
Amo abraçar o vento, leve como o pensamento,
carregar conchas e sonhos, pensar que aqui sou feliz.
Se o tempo pesa nos ombros, confesso minha exaustão,
mas faço um novo poema para divertir a tristeza,
no final das contas a vida é boa e sonhos...bem,
sonhos são feitos para serem sonhados à toa...

Sônia Schmorantz

Depois da Chuva
Depois da chuva vem o céu de prata
a iluminar os caminhos molhados,
a imagem poeticamente cinza dos
pássaros esvoaçando em galhos nús,
e as nuvens se arrastando com o vento.

Depois da chuva, brota a poesia
das calçadas molhadas,da terra lavada,
do capim cheiroso de beira de estrada,
Empresta um sonho perfeito,
planta sementes de poesia.

A chuva que atravessa a paisagem
deixa cair amarras e passa por mim,
abre as secretas janelas para ler
os mudos poemas tamborilando
nas calçadas.

Sônia Schmorantz

Poema para um Quase Verão

Nas noites de um quase verão
entre as nuvens de uma chuva fina,
de asas abertas sombras e vultos se movem
entre os zumbidos que ecoam na noite...
São murmúrios escondidos,
são caricias do vento na verde ramagem.

Chuva, nuvens, estrelas
lua que brinca de esconde-esconde,
brinca comigo, com meus pensamentos.
Vem vento, vai vento... devagar
desprende as palavras deste poema à toa.

Brinca comigo, com minha alma
leva para fora os sons rasteiros das tristezas,
desperta a brasa destes mornos versos,
vai nas ondas deste mar,
desenterra os sonhos náufragos lá do fundo,
e deixa-os voar nas asas de uma gaivota,
plainando entre o mar e o céu
em uma rubra noite de verão...

Sônia Schmorantz

Hoje

Hoje sou este azul,
sou entardecer, silêncio e magia,
sou do mar a imensidão,
sou da brisa a serenidade,
sou perfume, sou pecado,
sou vida e paixão,
sou luz de luar beijando o mar...

Hoje sou esta natureza,
sou vento que desenha nuvens,
sou a noite e seus pássaros,
voando nas asas do vento...
Sou mulher cheirando a flor,
alguém a quem chamam de poeta,
mas sei que poetisa não sou,
sou mulher desta natureza,
meus versos são apenas sentimentos
que dançam nas ondas do mar...

Sônia Schmorantz

O vento passa nas tardes mornas,
Sinto seu abraço,
Sinto que vive e canta dentro de mim.
Sinto o sopro do vento, o cheiro do mar,
O ilimitado do céu vazio,
Ar que penetra suave e reascende uma
Chama cósmica em meu coração.
Abençoada seja esta natureza silenciosa.
Há uma parte de mim que se ausenta
E parte com o vento,
Todos os dias um pouco,
Enquanto o poente no céu se estende
Numa saborosa melancolia...
Mas agora volto...
Volto à minha vida,
Hora de seguir caminho,
Natureza e vida ainda sorriem para mim...

Sônia Schmorantz

Sem pretensão poética

A noite é um quadro adormecido,
Com a lua lendo a alma da gente.
Estes pensamentos dançantes,
Que penetram na noite
Enquanto morrem as estrelas.
Serenos silêncios da madrugada,
Coração deambulando saudades.

Amo a noite calada,
O som dos pios noturnos,
Os soluços da natureza e
O roçar das folhas nos telhados.
Vejo meu amor nas sombras da noite,
Quando vaga, viajante na noite fundida,
Desfaço a distância e me lanço ao vento,
Com o coração aberto à vida...

Sônia Schmorantz

Quando quero falar de amor, às vezes calo:
Há um som no coração, mais alto que a palavra,
Canta pelas ruas, mesmo sozinho,
Tamborilando nas paredes uma música
Que fala do mar, da flor, da saudade.
No peito a música impele estranha
A palavra congelada no papel.
É um canto sem letras,
Que só o coração conhece o tom...
É coração que floresce, amor que aquece
E que a palavra esquece...
Quando quero falar de amor, se calo
É porque o coração canta mais alto a paixão.
No silêncio desta madrugada
Vem ouvir a canção que sai do meu coração
Pois ele canta baixinho, só para ti...

Sônia Schmorantz

Sementes

Silêncio ecoando na inquietude,
Minha alma procura o equilíbrio
Entre sentimentos de ontem e hoje.
Sentimentos imperfeitos,
Como imperfeita eu sou...
A poesia vem em fragmentos,
Como sementes desconhecidas,
Vividas, sonhadas, escondidas.
Sementes serenas como as lágrimas
Que a noite verte
Ainda que estrelas lhe façam companhia.
Sozinha aqui a pensar,
Não encontro rimas para a poesia,
Assim, só em fragmentos, lanço
Minhas sementes na noite que
Se encolhe dormente na fria madrugada.
Estou infinita e limitada,
Quero minha poesia inteira e
Todos os meus sonhos de volta...

Sônia Schmorantz

Inquietação

Chove em silêncio,
Pingos incessantes de poesia,
Formando molhadas reticências...
Há uma chuva em mim e
Seu reflexo cinza, triste,
Oculta a alegria colorida dos
Dias sem medo que eu tinha no coração.
Há uma melancolia sem cor,
Há uma chuva feito versos,
Que corre dentro do coração....
Não quero entender o que não tem explicação...
Quero silêncio depois do vento,
Quero um novo arco-íris num céu primaveril
Quero uma alma quieta, uma luz que silencie,
Quero outra vez ser chuva de verão,
Serenidade, solo que absorve,
Mar, montanha, flor, lua cheia,
Amor e vida, em meu coração....

Sônia Schmorantz

Brisa leve

Carrego uma brisa leve, que salta do coração
E em amarradas palavras canta com o vento.
É brisa que cresce calada, a murmurar palavras que,
Dançam no horizonte, envoltas pelo tempo, e
Que por teus olhosa guarda parada
Ao cantar um amor tão por ela sentida.
Fosse a brisa um dia vento e pudesse mergulhar
nos teus olhos sem idade, de infinita ternura,
Pudesse essa brisa voar como o vento pelo céu,
E pudesse pousar no teu rosto, num encontrar sentido,
Ao toque desta brisa que pelo teu amor se aviva,
Esse vento de melodias levarias contigo em
Todos os segundos dos teus dias, porque
São brisas assim que vão encontrar teu olhar
E dão asas a estas palavras como um vento
A te chamar...

Sônia Schmorantz

Folhas ao Vento

Minhas angústias são como folhas voando,
Chorando ao desprender do ramo que amavam.
As folhas caíram depois da ventania,
Vento que foi cantando, distante,
Levantando a areia da praia
De águas frias, cantantes, coloridas...
Vento agreste levou as folhas para o mar.
Sem mais o ramo para ficar,
vaguearam, rolaram,
Perderam toda a seiva que as adoçava...
O vento sempre as levar,
sem rumo, sem magia
Levou também a brisa doce dos meus versos,
Fez-se outono em mim, tamanho o abandono
De uma alma desfolhada que após o vento
Também caiu...

Sônia Schmorantz

Solidão de Poeta

Solidão de poeta tem nome,
Tem endereço...
É alguém que já teve junto a si
E que a vida em suas façanhas
Levou embora...
Solidão de poeta tem um rosto
Cujos olhos ainda tem cor e
Dos lábios ainda tem o gosto...
Solidão de poeta tem um corpo,
Cujo calor ainda lembra e
Cujo perfume está nas entranhas...
Solidão de poeta tem sentimento,
Saudade, lamento...
Da sua emoção faz poemas
E num sentir invisível
Faz dos versos a alma do seu amor
Para lhe fazer companhia...

Sonia Schmorantz

Um dia qualquer

Mais um dia que passou.
Um dia qualquer que na
Espuma das ondas se lançou,
Aqui onde as ondas são mansas
Mais um dia como outro qualquer
Nem complicado, nem fácil,
Dia comum que inspira poema sem nexo.
Mais que um dia, uma repetição
Um dia sem explicação,
Como chuva que escreve coisas na areia
Para depois o mar apagar...
Porque hoje é um dia qualquer
O grito cala e a alma se controla,
Só o atrito da caneta marca o papel,
Um arrepio silencioso ao cair do dia,
Solidão que assombra até o fim das marés
De um novo dia qualquer...

Sonia Schmorantz
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