Uma abelha na chuva
Navalha de barba:
numa só noite enferruja,
ó esta chuva de maio!
no parque vazio
duas árvores abraçam-se
em prantos de chuva
tantos outonos
em uma paisagem
chuva nos pinheiros
a chuva no charco
traça círculos
sem compasso
nuvem grávida
ao entardecer
primeira chuva de verão
A chuva já vem?
Não vem. É o marcador
cantando a quadrilha.
chuva amedrontada
mar majestoso e sombrio
inverno no ar.
portas batendo
fugindo da chuva
o vento
A abelha voa vai
vem volta pesada
dourada de pólen
São estabelecimentos que nos emprestam um guarda-chuva num dia de sol e pede-o de volta quando começa a chover.
Robert FrostEntre haicais e chuva
Súbita inspiração:
Um trovão.
Um rastro de lua
Na rua de rastros
depois que a chuva parou.
tarde de chuva
ninguém na rua
guarda a chuva
Chuva fina
trânsito na Paulista
São Paulo amanhece
chuva lá fora -
os pássaros, molhados,
foram embora
A chuva passou.
A noite um instante volta
A ser fim-de-tarde.
inútil, inútil
a forte chuva
mergulha no mar
Alma lavada.
Cheiro de terra molhada
Chuva de verão.
chuva na praia
o céu beija o mar
- gaivota espera
Março
Não sei por quê
Mas março vem com chuva
Que lembra despedida
Em seus lenços de nuvens,
Lenços estáticos num céu de mármore
E brisa dúbia de movimento
Com aromas incertos
Que passeiam devagar
Enquanto uma lua de presságios
Banha-se morta entre a névoa inconsciente
Das lápides de areia de uma praia,
Uma praia distante qualquer.
As chuvas de março trazem um silêncio,
Silêncio que lembra as lembranças
Que o sol ausente recusou lembrar.
Águas que como éguas no cio
Na relva molhada do peito
Cavalgam em ruidosa disparada
As cicatrizes vermelhas recentes
Dos sentimentos passados presentes
Que a onda do tempo levou.
