MARISA MARTINS
a mó do poente
mói fogo
sobre os campos
no poço da quinta
o balde traz-me
estilhaços da lua
princípio de outono
sol pálido
no céu branco
as rosas em botão
as raparigas
perdem o sono
tordos em bando
nuvens viúvas
acima dos montes
ribeira seca
nem um sopro
as cigarras crepitam
neve tão branca
à minha porta
onde pôr os pés?
um tufo de algodão
flutuando na água
uma nuvem
ao lusco-fusco
uma lufada faz tremer
o olho azul do charco
relâmpago de verão
grito de um mocho
nas oliveiras
figos pretos
em farrapos nas figueiras
chuva de outono
o vento a correr
leva a lua
na ponta de uma cana
nas ramagens embaciadas
o sol
abre frestas
um gato no telhado
para os pardais novos
que alvoroço!
silenciosamente
uma aragem enfuna
as cortinas enluaradas
o céu resfria
a lua vestiu
uma charpa de bruma
os teus cabelos
por travesseiro
como dormirei?
durmo sob uma oliveira
com o musgo
por travesseiro
ao pé da janela
dormimos no chão
eu e o luar
folhas escuras
tremem na brisa
à contra-lua
