As fabulas de Millôr Fernandes

Encontrados 280 com a expressão as fabulas de Millôr Fernandes

Chama-se celebridade um débil mental que foi à televisão.

Millôr Fernandes

É muito fácil viver com pouco desde que a pessoa não gaste muito para ocultar que tem pouco.

Millôr Fernandes

há colcha mais dura
que a lousa
da sepultura?

Millôr Fernandes

Numa vida média de 50 anos, 80 a 100 dias são empregados pelos homens só no ato de fazer a barba. Ignora-se o que as mulheres fazem com esse tempo.

Millôr Fernandes

O homem é um animal que adora tanto as novidades que se o rádio fosse inventado depois da televisão haveria uma correria a esse maravilhoso aparelho completamente sem imagem.

Millôr Fernandes

O poder é o camaleão ao contrário: todos tomam a sua cor.

Millôr Fernandes

A verdade é que a maior parte das pessoas foge de tentações que nem se dão ao trabalho de tentá-las.

Millôr Fernandes

Cada ideologia tem a inquisição que merece.

Millôr Fernandes

Chapeuzinho Vermelho

Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e... (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, - natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).

Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: "Onde vais, linda menina?" Respondeu Chapeuzinho Vermelho: "Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde".

Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: "Psychopathology Of Everiday Life", The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.

Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em "Sexual Behavior in the Human Female". W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

Extraído do livro "Lições de Um Ignorante", José Álvaro Editor - Rio de Janeiro, 1967, pág. 31

Millôr Fernandes

Para você parecer culto é só ficar de olho no que o outro cara ignora.

Millôr Fernandes

Passado: É o futuro, usado.

Millôr Fernandes

Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância.

Millôr Fernandes

Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte.

Millôr Fernandes

É porque ninguém gosta de trabalhar que o mundo progride.

Millôr Fernandes

Fique tranquilo: sempre se pode provar o contrário.

Millôr Fernandes

Inúmeros artistas contemporâneos não são artistas e, olhando bem, nem são contemporâneos.

Millôr Fernandes

O preço da fidelidade é a eterna vigilância.

Millôr Fernandes

Ontem hoje / E amanhã / O homem o cabelo parte / Parte o cabelo com arte / Até que o cabelo parte.

Millôr Fernandes

Se você acha que está maluco é porque não está. Mas, se você acha que todo o mundo está maluco, então está.

Millôr Fernandes

Sim, irmão, o dinheiro não é tudo. Mas o que é que é tudo?

Millôr Fernandes

Um homem é realmente velho quando só pensa nisso.

Millôr Fernandes

A gente só morre uma vez. Mas é para sempre.

Millôr Fernandes

A pobreza não é, necessariamente, vergonhosa. Há muito pobre sem vergonha.

Millôr Fernandes

Achamos que os padres também devem casar. Não há nenhum motivo para que conservem o privilégio do celibato.

Millôr Fernandes

com pó e mistério
a mulher ao espelho
retoca o adultério

Millôr Fernandes
Páginas:  Anterior  1 2 3 4 5 6 7 8 9 10   Próxima