O império dos signos
Mallarmé diz bem a oscilação entre o conceito e o corpo: “alors par un commerce don’t paraît son sourire verser le secret, sans tarder elle te livre, à travers le voile dernier qui toujours reste, la nudité de tes concepts et silencieusement écrira ta vision à la façon d’un Signe, qu’elle est”. “Le sexe est un charnier de Signes. Le signe est un Sexe décharné” (9). Do mesmo modo que o Ouro é o equivalente geral das mercadorias, assim o Phallus é o equivalente geral das pulsões que, se não fossem submetidas ao “primado da zona genital” (Freud, 66, 113), ficariam como na infância, privadas de centro e num estado “anárquico” e “polimórfico”. O estatuto monárquico conferido ao falo implica a sua exclusão da ordem das trocas (sexuais). Esta exclusão do falo tem como vertente fantasmática a castração. Deixamos o regime da troca simbólica, da ambivalência do sexo e entramos no regime da especularidade, da bivalência dos papéis sexuais que subsiste apesar das tentativas de hoje para apagar as clivagens entre o masculino e o feminino. Enquanto estivermos sujeitos à “monarquia” do falo, nenhuma “revolução sexual” poderá recuperar a ambivalência do sexo. Nem escapamos à monarquia do falo reduzindo a ambivalência à ambiguidade do unissexo, em que o sexo é a cumulado como “soma” de dois pólos: o masculino e o feminino que se sobrepõem como duas unidades no quadro não liquidado do modelo bissexual. Nem podemos pensar que os corpos se libertem dos tentáculos do poder pela irrupção do desejo (à Deleuze ou Lyotard). O código da economia libidinal reproduz o código da economia política. O pénis não pode funcionar como pénis ou como equivalente geral das pulsões se não é subtraído ao uso imediato que é o onanismo e à troca imediata que é o incesto. É daí que promanam os valores que, de outra forma, se perderiam na prática do uso imediato e da troca directa. A castração gera o desejo, porque só os objectos de uma necessidade que podemos diferir podem tornar-se objectos de desejo. Mas diferir significa capitalizar.
JOSÉ AUGUSTO MOURÃO