MEMÓRIA VIRTUAL MÍNIMA

Ela não agüentava mais dizer várias vezes os desejos que queria realizar com ele, mas só com ele... Os momentos que precisava ter ao seu lado. Aquela droga de virtualidade que ajudava e atrapalhava, que fazia despertar tão fortes emoções e depois... Bem, simplesmente não existia o depois.
Ela perguntava para ele, para o céu, para lua, para Deus, para ela mesma, quantas vezes seriam necessárias dizer o quanto o queria, para que ele acreditasse naquela verdade. Por isso, ela talvez tenha um dia cansado de somente dizer. Por isso, precisava vê-lo.
Ela queria transformar em realidade todas as palavras escritas nos e-mails, e as que foram ditas pelo telefone. Ah, aqueles telefonemas nas madrugadas em que o sono parecia brincar de esconde-esconde.
Enfim, chegava o momento em que as próprias palavras se tornavam totalmente dispensáveis, pois não existia dicionário que pudesse distinguir o que era loucura e o que era são. Ela só queria concretizar de uma vez por todas aqueles sentimentos, embora sendo todos abstratos.
Ela queria explodir em paixão com ele. Queria que ambos se deixassem queimar, arder naquela chama. Aquela chama que era tão insaciável, que não cansava, que os chamava. Chama que clamava em uni-los e convertê-los um ao outro, a serem possuidores dela e ao mesmo tempo serem por ela consumidos.
Ela ficava diante de uma tela procurando vestígios dele. Ela se perguntava onde estaria o seu amado. Ela se perguntava o que estaria fazendo naquele momento. Estaria pensando nela? Pedia ao menos que ao ausentar-se, que ele levasse consigo o desejo dela. Ficar com todos aqueles desejos ali, era tão indesejável. Afinal, pra quê tantos desejos se não poderia realizá-los? Precisava de uma resposta.
Ela pedia que ele esquecesse, ainda que doloroso, o malfeitor passado, e que a deixasse presenteá-lo com o presente dela. Estar ao lado dele, sua eterna amante, menos naquela maldita virtualidade.
Um dia a resposta veio, e foi inevitável, e foi inacreditável... O "logout" tão temido e ao mesmo tempo tão desejado, aconteceu. Ele a "deletou". O coração dela continuava batendo forte em emoções reais. E no virtual? Sim, ela continuava a receber mensagens em sua tela. As mensagens diziam que a memória virtual estava mínima, e isso, pelo fato de estar muito cheia. É... Cheia de recordações que ela não conseguia simplesmente "jogar na lixeira", por que estavam todas tão salvas...

Andréia Jane

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