Ele seguia por uma rua do centro da cidade e uma mosca zumbia sobre sua cabeça. Era uma daquelas moscas impertinentes, que quando se encardem com alguém são um tormento. De quando em quando sentava-se em seu rosto e ele se esbofeteava com força. Tentava acertá-la, mas nunca conseguia. Fazia coreografias no meio da multidão, andando em ziguezague, parando, dando pequenas corridas e nada. A fulaninha era da pá virada (já vi alguns especialistas dizerem que ser do apá virado também é correto) e não dava tregas.
O homem estava uma fera. Já tinha o rosto vermelho e quase inchadoi de tanto se esbofetear. Entrou numa lotéria repleta de apostadores e pagadores de contas. Tomou lugar na fila e pensou satisfeito que se livraria da bichinha. Ledo engano. Aí é que ela o aborreceu mesmo. E o pior é que algumas pessoas viram a contenda e tentavam sufocar ou esconder um sorriso, o que o deixou mais enraivecido e mais violento com a mosca, ou seria consigo mesmo, pois apenas ele apanhava.
Não se conformava com a situação. Havia tomado banho e posto uma roupa limpa e cheirosa aantes de sair de casa. Não tinha mau hálito (nem sei se isso atrai moscas) e estava até perfumado. Olhoau por todos os cantos para ver se captava alguma outra mosca, um mosquito da dengue que fosse. Nada. Era só aquela. Resolveu pedir a uma senhora que lhe desse uma pancada na cabeça, fosse com o que fosse, assim que percebesse a mosca sentada. A mulher esperou e, meio louca, quebrou um celular em sua nuca. /ele chegou a tontear e ficou irritado:
_ A senhora é louca?
_ Mas foi o senhor que mandou!
_ Ora, dona! Dar uma cacetada dessas com um celular bem na minha nuca... acho que a senhora é mais nociva do que essa mosca.
_ Mal agradecido, deveria fazê-lo pagar-me o celular. Veja como ficou. Arrebentou inteiro nessa cabeça dura..
Deixou a mulher de lado e deu outra bofetada na cara. Gritou até um "filha-da-puta" que chamou a atenção de todo mundo.
_ Está me chamando de filha-da-puta? _ resmungou a mulher maluca,
_ Não, dona. Falava com outra chata, mas me refiro a esta mosca.
_ Chato é o senhor, que não toma banho.
Quando chgou sua vez no caixa, ocorreu o inesperado. A mosca entrou pela pequena abertura de vidro e foi sentar-se no nariz de uma jovem loirinha e bonita que atendia do lado de dentro. Ele demorou uns cinco minutos no caixa e foi embora com pena da moça. Ela se batia, torcia o nariz quando estava com as mãos ocupadas e a a mosca ficou por lá. Levantou-se, foi ao banheiro, mas não teve jeito. A mosca foi e voltou com ela. Aquele dia era o dia da mosca. Se tivesse mosca no jogo do bicho, era jogar e ganhar.
Cairbar Garcia Rodrigues