NASCE MORGANA

Sua vida...
Fétida, apodrecida e jogada no fundo de uma lata de lixo.
Corolário de um sonho esquecido.

Maria José acumulava desilusões sucessivas
Um oceano de frustrações
Lavar roupa para fora
Sustentar as bebedeiras do marido
Aceitar submissa os espancamentos
Do homem que corpatilhava sua cama

Ódio a queimar suas entranhas
Os únicos adjetivos que recebia
Vaca, fofoqueira e puta
Puta? logo ela que nunca conhecera outro homem

Ajoelhou-se diante da Virgem
Entabulou uma oração decorada e sem sentido
Rezou e não se sentiu melhor

Num ato a estátua no chão
Diante do espelho a imagem...
Uma velha de vinte e sete anos

No quarto o homem
Alcoolizado e desmaiado
Fogo e labaredas

A pobre casinha de madeira sucumbiu
Às chamas enraivecidas
De longe um sorriso e um olhar
Morre Maria José
Nasce Morgana

Adriano Saraiva