fabrina Martinez
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Psicografia e olhos verdes
Nem morrendo resolve
Eu estava realmente cansado, pensando obsessivamente em mudar pra um lugar como Recife, bater a cabeça na palha sempre que tiver vontade e ir trabalhar de havaianas. Mas eu não ia, pra me mudar teria que deixar de ser inerte e isso me custaria muito nesse momento, não irei. Mas saí para planejar essas coisas que não farei, estava à noite, não me lembro direito, mas acho que estava escuro. Acendi um cigarro enquanto pesava os prós e os contras de um suicídio, a melhor maneira de morrer seria andando, andar e chegar ao fim. Isso, precisava chegar ao fim. Se esse conto fosse escrito por um nerd, teria referências e seria longo. Mas é uma psicografia, o que me obriga a ser rápido já que esse médium é um escroto. Nunca confie em médiuns de camisa pólo. Nunca.
Então, eu estava lá andando a caminho da morte, seria poético, se não fosse ridículo. Era meu terceiro cigarro seguido e eu não havia morrido ainda. Parei e olhei o maço, quatro. Calculei que isso levaria mais uns vinte minutos e se não morresse, tinha outro maço em casa, o que me motivaria a voltar. Mas eu não queria, voltar implicava em passar pela sala e me ver no espelho e enxergar que virei tudo aquilo que minha mãe me pediu pra não ser e, por um certo tempo até, gostei de ser. Agora sou só um filho da puta sem razão. E não queria dormir cheirando a cigarro, morrer sim, isso faria justiça a tudo o que não fui.
Então me aproveitei da presença de umas pessoas aí e gritei uma ofensa qualquer. Apanhei como não acontecia há anos, a cada soco um sorriso e então desmaiei. Acordei no hospital, 65 pontos, duas placas e a incapacidade de ser assassinado. Por desaforo, comi a enfermeira, que espalhou pro hospital inteiro e pro marido. Morri como devia, esfaqueado. Porque ela deu pra você? Sei lá, vai ver são os olhos. Putinhas sempre gostam de olhos verdes. Levou os meus, por isso estou psicografando esta mensagem. Ao menos não vi ninguém chorando por mim, se é que havia.
fabrina Martinez