Toni Rodrigues

Encontrados 6 pensamentos de Toni Rodrigues

A tradição e a lei

(*) Toni Rodrigues

Existem, no Piauí, dezenas de empresas de ônibus intermunicipais. Algumas, exageradamente luxuosas. Outras, pobres por demais, aceitam até passageiros com galinhas e outros bichos.
Entre elas, podemos destacar a empresa Barroso, de Piripiri, fundada há pelo menos cinco décadas e que faz o transporte de passageiros entre a cidade de origem e a capital. Diariamente, em vários horários.
A Barroso já foi uma grande empresa. Esteve entre as maiores do estado. Hoje, não está com essa bola toda.
Outra empresa, a Arêa Leão, surgiu em Alto Longá, cidadezinha localizada a setenta e poucos quilômetros de Teresina e que até pouco tempo era uma espécie de curral eleitoral da família Arêa Leão.
As duas fazem percursos parecidos, despejando seus passageiros em Teresina, mas têm pouco respeito pelos passageiros em geral. Digo isso por experiência própria.
Aos 5 anos de idade fui acometido de poliomielite. Passei a enfrentar problemas de locomoção que foram se agravando a partir dos 10 anos. Aos 16, passei a me locomover com uso de uma bengala. Isso nunca me impediu de fazer nada – de estudar, namorar, ler bons livros, tomar um bom vinho, frequentar bons restaurantes etc. Ou seja, tudo que está ao meu alcance.
Não está ao meu alcance jogar futebol ou fazer escaladas. Também não posso andar de moto e muito menos ficar de pé por muito tempo. As duas empresas em questão não respeitam a minha condição e tampouco a cerca de 112 mil deficientes que existem no Piauí.
Outro dia, pela manhã, fui pegar o ônibus para ir ao trabalho. Moro em Altos, a 42 km da capital. Antes de subir, perguntei ao cobrador se tinha vaga. Ele me disse simplesmente que não e me recomendou que esperasse o ônibus seguinte.
O mesmo aconteceu com a empresa Arêa Leão, só que no sentido inverso. Eu estava voltando para casa, no fim da tarde. O cobrador falou que não tinha jeito a dar.
Não estou reclamando à toa. Existe uma Lei Estadual que garante a deficientes, idosos e grávidas o direito preferencial do assento. As quatro primeiras cadeiras de todo e qualquer ônibus que circula em território piauiense deve reservar assentos para estas pessoas.
Nem todo mundo pode botar a boca no trombone. Por isso é que estou vindo de público fazer a reclamação. Porque a lei precisa ser cumprida, mas antes de tudo, os direitos das pessoas precisam ser respeitados. Nenhuma tradição está acima da lei.

(*) Jornalista e coordenador editorial da rádio Teresina FM.

Toni Rodrigues

A questão da energia

Continuo defendendo a idéia de que a população altoense deve continuar lutando pela melhoria do sistema elétrico do município. Desde que propusemos aqui a suspensão do pagamento da conta de energia através de ação judicial contabilizamos 1.006 faltas de energia em horários variados – principalmente durante os festejos de São José, que este ano ocorreram entre 5 e 15 de março.
De acordo com os cálculos que realizamos são nada menos que 30 suspensões de energia diariamente, o que demonstra bem o descaso da companhia energética em relação ao município de Altos e sua população. Observe-se, por necessário, que a Cepisa fatura mensalmente a importância de meio milhão de reais. Isso mesmo: meio milhão de reais!
Deveria haver mais respeito da parte da companha. Não há. Resta ao povo altoense se mobilizar e fazer acontecer. Lembramos aqui os exemplos de Inhuma e Itaueira, onde a população conseguiu, por meio de determinação judicial, suspender o pagamento da conta de energia.
Em Inhuma, os moradores estão há dois anos sem pagar energia. Nas duas cidades, a companhia está deixando de arrecadar por mês a importância estimada de 400 mil reais.
Está na hora de uma ação semelhante por parte dos altoenses. Estivemos em oportunidade recente em contato com o advogado Marcondes Gomes de Araújo. Ele nos disse que toparia assumir a defesa da comunidade.
A população precisa, no entanto, sair da letargia que infelizmente a atinge neste momento e tomar ela mesma as suas providências.

Toni Rodrigues

Comércio e associativismo

(*) Toni Rodrigues

O comércio é hoje a principal atividade econômica do município de Altos. A agricultura sobrevive a duras penas financiadas por programas do governo federal. A pecuária de corte e de leite também passa por dificuldades inúmeras dificuldades.
Desse modo, o comércio ganha notoriedade na geração de emprego e na circulação da renda do município, formada basicamente pelo dinheiro da prefeitura, salários de servidores públicos (dos três níveis), aposentados e pequenos produtores.
Diante disso, não se justifica que o município ainda não conte com uma associação comercial, a exemplo do que já ocorre em vários municípios vizinhos, alguns dos quais até com menor porte do que Altos.
A economia altoense movimenta pelo menos 12 milhões de reais por mês, num total de 145 milhões anuais. É a oitava cidade piauiense em termos populacionais. Nada há que justifique a inércia, a não ser a ausência completa de estímulo por parte dos líderes de opinião ou a descrença generalizada que predomina entre a maioria da população.
Percebe-se que a auto-estima está em baixa por conta de uma série de atropelos administrativos praticados ao longo do tempo e que a mobilização política se dá muito mais por exclusão do que pela necessidade de aglutinar as pessoas em torno de um objetivo comum.
Quando falo de política, estou falando de toda e qualquer movimentação do ser humano em torno da defesa dos interesses coletivos. O comércio movimenta cerca de 70% do dinheiro que circula em Altos, o que corresponde a aproximadamente 8,5 milhões de reais. Todo este potencial não pode continuar sendo desprezado em benefício da letargia que acomete a maioria da população local.
Esse tipo de comportamento, sem dúvida, amplia o espaço dos maus.

(*) Jornalista e coordenador editorial da Rádio Teresina FM – 91,9 MHz

Toni Rodrigues

A vida, sempre ela...

Muitas vezes me surpreendo tentando entender como fiz para chegar até aqui. Não foi fácil, confesso, mas nem sempre podemos contar com a facilidade para atingir nossos objetivos. Na maioria das vezes, a dificuldade se impõe em estado bruto, isso quando realmente queremos conseguir.
O mundo cor-de-rosa da infância só existe para nós. Porque naqueles tempos tudo são flores e sorrisos. Nossas lágrimas somente ocorrem quando nos sentimos de alguma forma ameaçados: um olhar zangado, uma recusa ao que pedimos, a palmada pelo erro cometido. Fora isso, somos sempre felizes, o tempo inteiro certos de que o mundo gira em torno de nós.
Quando crescemos e nos tornamos adolescentes percebemos que não é bem assim. É hora de sair do casulo e ali existem outros espécimes humanos que se aventuram pelo mesmo caminho. A exploração do mundo, tateando os sentidos, buscando explicação para as coisas, tentando compreender por que pessoas se matam por dinheiro quando tudo deveria ser apenas amor. E quando não encontramos o respaldo na outra pessoa, então nos debulhamos em lágrimas, pela primeira vez a recusa, nossa bolha explode e então nos tornamos personagem do mundo.
Nossos pais bem que disseram. É preciso estar preparado. Roubo aqui o pensamento de alguém que no momento não recordo quem é: a oportunidade favorece a mente preparada. Mas não podemos nos trancar naquele mundinho da infância, porque agora nossos hormônios estão à flor da pele e buscam o contato do outro, do sexo oposto, daquele que pode nos dar felicidade, ser a nossa complementação.
Certa vez vi num filme que ao nascermos nossa alma se divide em duas. Então passamos a vida inteira procurando nossa outra metade. Aqueles que dão sorte conseguem encontrar. Os que têm azar e não encontram estão fadados ao sofrimento pelo resto dos dias. A felicidade não reside apenas em encontrar a pessoa amada. É preciso, antes de tudo, saber conviver com a descoberta do mundo novo.

Toni Rodrigues

O rapaz na bolha masturbatória

Lembro que na adolescência eu queria ser escritor. Mandei carta pra meio mundo e anexava meus poemas e crônicas na tentativa de encontrar alguém que se sensibilizasse com a minha busca. Escrevi para Globo, para as editoras da época, para os escritores conhecidos, para revistas e jornais de circulação nacional e jornais de circulação local. Encontrei guarida nos jornais locais que publicaram alguns textos meus e também na Revista Nacional, onde tive a oportunidade de publicar ao lado de escritores como Joel Silveira, Leon Eliachar e outros não menos famosos. Motivo de orgulho para um camarada de apenas 16 anos e que ainda pensava que o comunismo era o jeito pra humanidade.
Eu queria ser um escritor famoso. Não consegui. Queria ser um jornalista influente. Não consegui. Sou uma pessoa que leva muito a sério o sentimento dos outros. Não se consegue fama respeitando ninguém. Os famosos sempre tiveram que passar por cima de alguém ou de alguma coisa. A escrita tem que desafiar, ofender; tem que instigar a revolução na consciência. Belas palavras não despertar mais do que singelas reflexões, aquele olhar perdido no espaço, mirando um lugar inexistente e sofrendo por bocas que nunca beijamos e corpos que nunca penetramos, nada mais do que isso.
Publiquei, no extinto Jornal do Piauí, uma historinha de amor patética, em que o cara fica se martirizando porque não quer fazer sexo com a namorada antes do casamento. Ela quer e insiste, mas ele que não, que tem por ela um sentimento verdadeiro e que só pretende possuí-la depois que oficializarem a relação através do matrimônio. Ora, bolas, ele só tinha 16 anos e ela talvez nem isso. Quanto tempo teriam de esperar? Só mesmo um sujeito vivendo numa bolha de plástico poderia conceber uma história ridícula como essas.
Sem contar que o pai do banana era muito rico e não aceitava seu relacionamento com a garota que era de família muito pobre. O resultado não podia ser outro. Eles foram separados, cada qual para o seu lado, ela para os braços de outro homem, ele para a sua clausura masturbatória. Pobre diabo!
Quem iria se interessar por uma história assim? Não fiquei chateado por não ter recebido resposta para a maioria das minhas correspondências. Editores e escritores são pessoas ocupadas e têm milhares de coisas interessantes para ler todos os dias.

Toni Rodrigues

Roberto Cabrini

A prisão do jornalista Roberto Cabrini, ocorrida ontem em São Paulo, pode ser interpretada de várias formas. Numa delas, estaríamos tratando com um perigoso e voraz usuário de drogas pesadas. Ele foi preso supostamente portando uma grande quantidade de cocaína. Na outra ponta, poderíamos analisar como aquilo que nos parece mais confiável: a de que o jornalista esteja sendo vítima de uma tremenda armação por parte de setores do crime organizado aos quais combate em sua atuação profissional.
Comprometido com a verdade, Cabrini é reconhecido internacionalmente pela sua coragem, determinação e capacidade em descobrir a notícia onde quer que ela esteja. Ele foi responsável pela descoberta de PC Farias, então fugitivo da Justiça brasileiro e que estava escondido na Inglaterra. No Piauí, ficou conhecido por denunciar juízes e desembargadores supostamente com vendas de sentenças para prefeitos e vereadores corruptos. O caso ganhou repercussão em todo o país e resultou no afastamento de várias autoridades do Judiciário piauiense.
Difícil acreditar que Roberto Cabrini esteja envolvido com drogas, principalmente porque ele não tem histórico de uso de drogas. O histórico de Cabrini está muito mais relacionado à luta em defesa da liberdade de expressão e de informação do que a qualquer tipo de prática ilegal.
Cabrini foi preso em companhia da namorada. Foram encontrados 10 papelotes de cocaína em seu carro. A mulher disse à polícia que ele é usuário da droga há pelo menos 3 anos. Mas a TV Record, empresa na qual o jornalista trabalha atualmente, reconheceu que ele estava realmente produzindo uma reportagem investigativa sobre o PPC. Cabrini queria desvendar as causas dos ataques ocorridos em SP no ano de 2006, quando ocorreram eleições para presidência e governos estaduais.
Há suspeitas de que o movimento tenha tido orquestração política, o que poderia apontar a ligação entre destacadas autoridades da República brasileira com os chefões do crime organizado em Sampa. Junto com o jornalista, havia um cinegrafista e um produtor da Record. Os dois estavam em outro carro que vinha um pouco atrás do carro dirigido pelo jornalista no momento da prisão. Eles prestaram depoimento e confirmaram a versão de Cabrini.
Ainda estamos no terreno das hipóteres. Como é muito conhecido, é natural que haja neste momento milhões de bolsas de apostas em andamento: Cabrini é culpado ou inocente. Não jogo pedras em ninguém e jamais atacaria um colega de profissão. Minha idéia é de que deixemos as autoridades cumprirem o seu papel, porque no fim a verdade prevalecerá. Acredito na inocência do jornalismo e não poderia ser diferente com Francisco Roberto Cabrini.

Toni Rodrigues