Henrique de Shivas
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Teu Beijo
Neste desejo
De beijar
O teu beijo
Amaciar
Tua pele
Nesta dura
Loucura
De saciar
Uma dor
Que vem
Do fundo
De uma paixão
Sem coração
Eu me regozijo
Com um lampejo
Impar
Do teu olhar
Neste desejo
De beijar
O teu beijo
Henrique de Shivas
A Rima
É difícil entender um poema
Que não extrapola.
Quando eu saí da escola,
Eu compreendi.
O poema que não extrapola,
É sem braços e pernas...
Canta com letras e laços,
Significados esparsos,
Apenas.
A rima
É o menor do poema,
É beleza que rima
O trágico dilema.
Não faz sentido,
Às vezes, a rima.
A rima que rima
Com rima,
Ou a rima que rima
Com alma.
Tanto faz se rima
O sentido da rima,
O importante é rimar,
Como dois namorados
A namorar...
Rimar um bocado
É, apenas, rimar.
É tão fácil rimar.
Rima, rima com ímã,
Que faz o ferro andar.
Rima, rima com Gina,
Que faz o meu pranto chorar.
Se rima não rima com canto,
Também não “rima com sentimento”,
E se rimar,
É jumento,
Jumento
Que se pôs a rimar.
Henrique de Shivas
Riso de quem Cala
Nada como rir
Daquele que fala
E protesta.
Não sabe ele
Que quem cala,
Detesta
Melhor.
Explico:
Quem cala
Não fala,
Apenas escuta
Quem protesta
Contar seus segredos,
E como um Tolo que fala
Demais,
O que cala
Jamais
Se revela.
Henrique de Shivas
A Inveja
Hoje Eu vi nos olhos das pessoas,
O seu segredo de inveja,
De querer ser o que não é.
Suas vidas são tristes, é certo.
Seus semblantes pesam demasiadamente,
E porque em si não encontram a si mesmas,
É lá no Outro que procuraram existir.
Henrique de Shivas
Bacco
Convidai-me ao teu berço oh Baco!
N’adega escarlate e buraco oco,
Onde ma boca arregaça o lábio.
Convida-me na Glória do absurdo,
E rio comigo a festejar o amigo.
Pois és quem me dás preferido abrigo.
Um passo que ao morto tropeço:
– Cadáver pálido e roxo beiço;
Lá no peito ou triste baço,
A beber teu sangue confesso.
É-te ma alma tua formosa alma,
E em vinho sonho como um fantasma,
A negra morena e a doida alva,
Fazer-te desejo ma teimosa escrava.
Mio hercúleo cérebro é todo úmido,
De sangue que traz na corrente o Ébrio,
Sede de louco Eu-poeta embriagado,
No álcool violáceo este santo remédio.
É-me feliz o sorver teu delírio,
E nas costas tirar mio cangaço
Fardo que a carga nos faz cansaço;
Moribundo bagaço e tédio irrisório.
Henrique de Shivas
Tu
¿Quem és tu que ao verso blasfema
E a palavra arde tanto quanto queima?
¿Não és, pois, como o cântico do Maldoror,
Cujo ultraje traz em si a verdade do estupor?
Per favore não me digas quem és mais...
Porém, empina-me e diga: o que tu és.
Henrique de Shivas
O Poeta
O Poeta, este fantasma-hermético do Sonho, mestre em delatar a Hipocrisia, a Canalha e a Beleza. Falando, eloqüente; vagante em brumas cuja polpa tem gosto de loucura...
O Poeta, este médium-estrambótico; inato-capaz de vislumbrar o Doce e a Fealdade, o Sonho e a Realidade, respectivamente. Falando, eloqüente, numa psicografia-talentosa do Ser; mastigando as cordas de aço do amor: esse sentimento tão explorado pelas mentes-incapazes de não seguirem os pulsões do inconsciente-selvagem & Belo.
A Arte, suas imagens-tênues, outras, às vezes, suas figuras-fortes, ícones da Tragédia da Existência; fetiches do cômico-existir, gravuras-talhadas com o dedo do amor ao Livre, a Liberdade e a Emoção das criaturas.
O Poeta nos diz seus pesadelos com cores tão belas, que até nos persuade e convence a também querer ter pesadelos como os dele.
O Poeta, muitas vezes, chama-nos ao Suicídio; esse ato-natural dos corpos que em nascimento, já começam a morrer... corpos-suicidas; escondidos e ofuscados... perdidos sob a moita “acolhedora” do tempo, da efemeridade, do famoso-fugaz devir a ser.
O Poeta, anunciador de feelings ditos em palavras-conjugadas em frases, máximas, orações... como em uma espécie d’alquimia-divina e monstruosa: semelhante à cozinheira que faz dos mais azedos-frutos, ácidos-licores e sórdidos-alimentos – faz-los iguaria d’onerosa-cor, divino-aroma e paladar-altivo.
A Grande-Obra poética: eis, o Poema.
¿E o nirvana do Vate? ...A verve, o insight-transubstanciado em vinho-santo; a contemplação do Cosmos, do Caos; o vislumbrar tudo-isso belamente: o Grande-Mundo, o Hermético-Universo, com poéticos-olhos-nus – estes potentes-telescópios... miúdos-calidoscópios-carnais; inato-óculos-nato e lúcidos – colorida-retina d’Altivez, Grandeza – Sublimidade.
Henrique de Shivas
Auto-Retrato
Visto roupas-rasgadas; tênis-pichados, furados; devassados pela vida.
Ando pelas noites a beber, a viver o Pecado, o Prazer, a Discórdia.
Todos me ouvem: sou Imoral, poeta dos palavrões; sem pudor, artista, rebelde, odiado.
Visto roupas-negras, roupas-nuas de pecado: nutro-me de Estrada, Vento e Natureza.
Bebo das Bebidas... como dos comprimidos, dos êxtases, das balas, dos doces; iluminado pelas luzes do Arcanjo LSD; salvo pelo deus Bacco – perdido pelas Ninfas do Orgasmo.
Fumando meu cigarro; perambulando pelas docas-noturnas...
Com minha mochila; com meu chinelo manchado de sangue, lama e poeira.
Meus dedos estão podres de tanto andar; meu organismo desfalecido pelas drogas do mundo...
Tranquilamente fumando; queimando o brakeado; dançando com Shiva sua dança de prazer; tal como as ondas do mar, neste mergulho de loucura; nesta vida de Sentido pelos vales-inóspitos: pelas Colinas do Delírio, com meu diário e poesia-viva – sentado sobre a Montanha da Alegria, do Prazer, da amizade-subversiva.
Sou poeta destes que vive o Momento; destes que andam pela noite; passando de braço em braço, pessoa em pessoa, beijo em beijo.
Há noites que eu durmo no chão, na dura-calçada sob gélido-frescor, perto dos esgotos...
Há noites que eu durmo entre tetas d’amor: mulheres do acaso; amantes do Esmo; acalentadora dos poetas-mundanos onde eu bebo em seus bicos os doces-leites d’Alegria; arranhando em suas carnes – friccionando o pênis de meus desejos-indomáveis em suas calcinhas manchadas de Doce-Orgasmo.
Dizem que eu sou Mundano, Vagabundo, Imundo.
Dizem que eu sou Imoral, Perdido, Parvo.
Eu sou tudo isso, digo.
Eu sou tudo isso agora: a encarnação d’Alegria; o vivo-cálice de vinho: sorriso-louco – poeta-maldito que o mundo criou.
Tranquilamente fumando; pelas orlas das praias-longínquas, desérticas... sobre as falésias, sobre os Abismos: ¿que tal inclinar-se para a Morte – desafiar o Absurdo?
Às vezes eu corro nu pelos bares, quando bêbado e gritando blasfêmias-poéticas; querem-me prender por que acham que minha ousadia é mal-educada: sou Bandido, Mundano – sou miserável!
Às vezes eu corro nu pelas Igrejas, quando alucinado pelas Drogas da Fobia; quero eu o consolo de Deus – então me expulsam do Lar-Divino, da dita Casa de Deus, só porque eles não sabem que Deus nos criou todos nus, loucos, desobedientes e bobos.
Dizem que eu sou Mundano, Vagabundo, Estúpido.
Dizem que eu sou Imoral, Perdido, Inescrupuloso.
Eu sou tudo isso, digo.
Sou a salmonela das refeições; sou o esterco impregnado no fundo do bojo... O resto de comida que o rato comeu.
Sou a brincadeira de mau-gosto, o Padre que comeu a virgem-freira e embriagou-se do vinho-sacro – o sangue de Cristo.
Ando pelas noites, bebendo, curtindo a vida; estuprando a Verdade; devassando o medo; estrangulando as limitações; lançando-me as alcovas do Impossível e do Absurdo.
Ando pelas noites, fumando o brakeado, misturando tudo num coquetel que vai dar na mente uma alegria-particular: uma alegria-peculiar que pertence ao meu sonho de viver, de andar, de descobrir, de escarrar e foder.
Minhas calças são folgadas, são rasgadas, são fétidas pela corrida-cotidiana...
Durmo sobre os prédios, nas docas-sorumbáticas; durmo sobre a Mata, ao lado dos escorpiões, da besta da noite, do maldito Mefisto.
Durmo sob o Céu, próximo ao Abismo; ou na estrada-sombria, longe de tudo, aonde um cão, certa noite, veio-me lamber os lábios-molhados de vômito.
Durmo sabendo que Amanhã haverei de acordar-fodido. Fodido d’astenia-ressaca... vomitando os destroços do pretérito-mnemônico e louco... tossindo o pigarro – as enfermidades dos vapores-ludibriantes... agonizando na febre do livre-arbítrio... curando a dor com mais Cachaça e Fumo... com mais Droga, Dor & Prazer.
Sou a catinga dos pêlos-pubianos, o doce-estragado que dá dor de barriga.
Sou o ladrão de comida – aquele que não é regido por Lei, mas somente por Amor, Desejo & Paixão.
Sou tudo o que você não pode ser; porque você quis ser mais um parvo senso-comum a viver uma vidinha-medrosa de Comodidade, Conforto e Tédio.
Minha família é o Mundo; assim, brigamos de vez em quando...
Meus filhos são todos os mendigos, todos os rebeldes e todos os apostadores no Acaso.
Minha escola é o Mundo. O Mundo me ensinou a ser torpe; a ser um “moralista às avessas”, que não teme viver sua Imoralidade, seu Cadafalso, sua sina-perigosa & Bela.
Com minha guitarra nas costas, sob os perfumes dos Édens, ao lado de Bacco – protegido por Thor – vou-me feliz ao Paraíso da Loucura cursar a Imortalidade.
Meus cabelos são longos; são madeixas crespas e assanhadas, encruzilhadas e ríspidas. Minha barba é messiânica: minha história, Divina.
Meu corpo está coberto por cinza; da poeira das estradas, do pó das estrelas e do ácaro dos cadáveres, que o tempo levou no vento.
Meu destino está traçado rumo à rota do imprevisto.
Com minha guitarra nas costas, sob os perfumes dos Édens, ao lado de Bacco – protegido por Thor – vou-me feliz ao Paraíso da Loucura cursar a Imortalidade.
Henrique de Shivas
Manifesto Geração Devaneio
Nós que amamos o devaneio, as forças-ocultas que explodem fantasia no domínio da consciência... Nós que estudamos a finco a vida, o cemitério dos ideais, a fortaleza das atitudes. Lançamo-nos trementes d’expectativa pelas estradas-obscuras da curiosidade, em uma espécie de peregrinação rumo ao desconhecido-lar dos prazeres, dos enigmas, das revelações, em busca de Bacco e todos os santos da alegria.
Nós que depredamos tudo aquilo que não compete aos nossos reais-sentimentos... Discordamos da lógica, da coerência, e fazemos uma revolução que começa com a transubstanciação de nossa própria alma-particular. Uma alma que se transmuta em vinho; um vinho que dá forças – néctar que fomenta a voz de verdades proclamadas com eloqüência-espiritual, transcendente, divinal. Uma voz que, das Trevas do Espírito, faz tremer como trovão os Firmamentos do Destino; balançando e destruindo dogmas que estão impregnados na língua da opinião – explodindo sóis!
Há uma geração de poetas que assim pensam, que assim fazem, que assim delineiam... Que assim revolucionam os domínios onde o capital ainda não comprou definitivamente a cabeça das pessoas.
O templo-budista onde a palavra desses poetas faz-se luz e escuridão são os bares espalhados pela Cidade-Perdida. Lá eles oram blasfêmias e gargalham dos ordinários conformados com uma vida de limitação, conformação e diversão controlada pela Lei.
Nós que devassamos o conceito-comum do social, aquele conceito que existe pra corromper e nos fazer seguir um caminho-determinado. Preferimos andar em ziguezague; tropeçando nos espinhos que em suas pontas brilham venenos que embriagam a alma, e elevam-na ao Nirvikalpa Samadhi das emoções.
Um brinde a todos que assim pensam, que assim fazem, que assim delineiam.
Um brinde a todos que amam a Baudelaire, a Rimbaud e todos os poetas-malditos que tanto contribuíram para formação de uma mentalidade cada vez mais forte, maciça e imortal.
Subvertemos o meio para torná-lo um meio-risível, chocante, alucinante. Viajamos pelo mundo a beber, a sorver o sonho, o delírio, a lombra.
Pulamos para cair de cabeça no duro solo dos prazeres; quase quebramos as “vértebras da sobriedade” com pulo tão ousado e perigoso.
Henrique de Shivas
Problemas?
I
Começa perguntando a ti mesmo se já não é hora de tomar decisões. Se já não tens suficiente experiência para saber o que te perturba, e qual a melhor maneira de resolver problemas. Garanto que teus problemas, se já ais de ler o que ti escrevo, estão bem longe de se constituir um sofrimento de uma criança Africana.
Pergunta a ti mesmo, se o teu problema é somente teu, ou se o é de uma outra pessoa, e pergunta por que o tempo, somente ele, cura; se já não dói muito, viver pouco na doença.
E no ontem, e também hoje, sempre erramos na culpa dos outros, não é verdade?
Deveríamos agir com força. E ser forte, é também ser verdadeiro; e sorrir sempre para os amigos, que estão ao teu lado; e que, sabendo que cada um o ama a sua maneira própria, haverão de magoar-te, como quem pisa num galho sem o ver.
Não condene a vida feliz, por um minuto de infelicidade.
Julgue melhor a ti, do que aos outros. E encontrarás a verdade dos teus problemas, na maioria das vezes, em tua própria lama; suja com lágrimas da ignorância.
II
Fazer de nós, a outra pessoa, não é uma aconselhável atitude; ainda mais quando somos confusos; - confundimos aqueles em que deveríamos confiar. E nos tornamos dois, uma única confusão, ainda maior.
III
Nos momentos de silêncio, ouça a voz do coração.
Nos momentos de alegria, não ria tanto, enquanto o outro chora; lembre-se disto.
E que no mundo, a vida é passageira; todos sabem. E preferem saber disso, equivocando-se, brigando.
Um minuto pode muito bem trair o carinho de amor, que temos por outra pessoa. Mas pergunta a ti mesmo se nunca fostes incauta? Se nunca fostes leviana? Se nunca errastes e quisestes mudar?
Assim, entenderás que nem tudo deve se observar do nosso lado; não deveríamos ser tão egoístas assim; querendo travesseiro e o lençol somente pra nós, enquanto o outro treme de frio.
IV
É bem verdade que fomos mal acostumados. E quando na juventude, o entrave bate a porta, procuramos o colo para deitar. E aprendemos a nos acovardar, temendo nos molhar numa tempestade que já desabou. E fechar os olhos para os problemas e as calamidades nunca foi uma boa solução. E fechar os olhos quando estamos na chuva, não diminui o molhado da roupa.
V
Julgar o outro pelo passado tenebroso; prova que és cauteloso. Embora extrema cautela seja traquina armadilha do diabo; caímos quando nos afastamos do Leão, para morrer na queda pelo Abismo.
VI
Se for possível, chore. Não deixe as lágrimas secarem no coração; encardida já é demais a vida!
VII
Uma roupa, um perfume, traz lembranças tristes; é de suma importância vestir a vida de roupas novas e perfumes límpidos; prontos pra tachar a vida de luzes mais belas e destinos mais sublimes.
VIII
Nunca pense três vezes numa mesma solução inválida. Tal atitude traz a idéia de que fracassamos sempre ao tentar sobrepujar empecilhos. E saiba que cada problema traz consigo a solução, que para cada pergunta existe uma resposta, e saiba que, se de um lado já fora feito algo de bom, talvez seja a hora de tu, fazerdes tua parte.
Henrique de Shivas
Adicionar Na coleção de 28 pessoasMais Informação “É muito egoísmo querer ter amigos; sem antes nos perguntarmos se algum dia, nós, os solitários do mundo, tivermos a disponibilidade de sermos amigos de alguém”.
Henrique de Shivas
Henrique de Shivas
“Perdem muito, as pessoas, que não se debruçam sobre o universo do estudo as religiões; erram, quando não ACREDITAM que a ciência também é uma CRENÇA. Assim o fazem, muitos, que se inebriam com um determinado conhecimento; elogiam-no, reverenciam-no, vangloriam-no, e por serem doutrinas, métodos, tábuas, etc. pelas quais se entregam diariamente sem cautela, por hábito imposto ou por inclinação a imbecilidade, e também por serem um tanto vaidosos e egocêntricos, atrevem-se a intitularem-se portadores da razão, do conhecimento e da verdade. Tal atitude vem delinear no quadro do pensamento humano, um rabisco de mau gosto, um desenho um tanto obsoleto e pueril, uma caricatura irônica do ser que busca o alto das montanhas na profundidade das cavernas...; mais do que nunca, sempre domados pelos invisíveis açoites da idéias preconcebidas, lutamos na defesa daquilo que nos corrompe, para nos tornarmos corruptores de toda a humanidade. Não queria eu, usar-me de palavras tão instáveis, que apesar de serem fáceis de compreender a alguns poucos, são herméticas a maioria, principalmente aos que estão corrompidos; mas, que na verdade, o que aqui quero salientar, aliás, apelar e implorar, a quem esteja lendo estas páginas, é que, salvem-se da indiferença e do apego aos abstratos conceitos: eles têm o poder de vetar os nossos olhos; e já é tarde demais para não abrirmos os olhos agora”.
Henrique de Shivas
Henrique de Shivas