Cairbar Garcia Rodrigues
Encontrados 9 pensamentos de Cairbar Garcia Rodrigues
DAS IGUALDADES ENTRE OS SERES
Nascemos, crescemos, vivemos. Todos muito parecidos nas características físicas, mas , por via de regra, mentalmente muito diferentes uns dos outros, se bem que tenhamos, primordialmente, os mesmos sentidos e sentimentos. E se a vida oferecesse igualdade de condições morais e materiais a todos, com toda a certeza não haveria ninguém mais ou menos feliz do que seus pares ou semelhantes.
Mas há pessoas que costumam confundir os sentimentos ou as circunstâncias que os envolvem, gerando crises existênciais para si e para o meio ao qual pertencem, como há, em contrapartida, outras que fazem exatamente o oposto, buscando a felicidade na simplicidade da vida, no simples fato de existirem, de serem pensantes, sentimentais, e por encontrarem no simples ato de viver a maior preciosidade até então imaginada.
Isto posto, não faltará quem venha a questionar-se se poderia existir felicidade num meio onde todos se igualassem, se não houvesse a competição, se não fosse próprio da natureza, tanto dos seres animados como dos inanimados, o jugo dos mais fortes sobre os mais fracos, como uma questão natural de sobrevivência, sendo inevitável um processo seletivo.
Em princípio a ciência buscaria nas características mentais do ser humano uma resposta que somente encontraria na filosofia ou na antropologia abrangentes, pois não bastaria estudar comportamentos mentais biológicos, mas muito mais os aspectos associados às escolas doutrinárias que se fizeram marcantes em toda a história da humanidade.
Contudo, apesar do que citei até aqui, imaginemos um mundo onde todos tivessem o mesmo perfil psicológico e as mesmas condições socioeconômicas. Seria isso possível? Teria sentido viver a monotonia de uma constante igualdade entre os seres? Está claro que não. Por isso as criaturas não são feitas iguais, não nascem iguais e não têm as mesmas chances de galgarem idênticas posições na escala social de valores espirituais ou materiais.
Daí surgem as maiores dúvidas quanto á eficácia de qualquer regime comunista, socialista ou libertário, porque jamais deixarão de existir os de maior poder de mando ou de persuasão tentando comandar pessoas que jamais serão iguais. Prova maior disso consegue-se vasculhando escolas, quartéis, etc., onde nem mesmo com uma rígida disciplina pode-se obter homogeneidade de comportamentos ou de pensamentos.
Assim, devemos crer que o melhor meio para se viver bem é aceitar as diferenças inatas ou causais de cada um, até que se chegue a uma interface que interaja com eficácia entre as várias normas de comportamento até então conhecidas, até que o próprio ciclo evolutivo se encarregue, a longo prazo, de determinar menores disparidades entre os seres, o que aliás vem ocorrendo de maneira até aceitável, embora muito lentamente. Mesmo assim há um grande retrocesso em várias sociedades do planeta.
Cairbar Garcia Rodrigues
Ele seguia por uma rua do centro da cidade e uma mosca zumbia sobre sua cabeça. Era uma daquelas moscas impertinentes, que quando se encardem com alguém são um tormento. De quando em quando sentava-se em seu rosto e ele se esbofeteava com força. Tentava acertá-la, mas nunca conseguia. Fazia coreografias no meio da multidão, andando em ziguezague, parando, dando pequenas corridas e nada. A fulaninha era da pá virada (já vi alguns especialistas dizerem que ser do apá virado também é correto) e não dava tregas.
O homem estava uma fera. Já tinha o rosto vermelho e quase inchadoi de tanto se esbofetear. Entrou numa lotéria repleta de apostadores e pagadores de contas. Tomou lugar na fila e pensou satisfeito que se livraria da bichinha. Ledo engano. Aí é que ela o aborreceu mesmo. E o pior é que algumas pessoas viram a contenda e tentavam sufocar ou esconder um sorriso, o que o deixou mais enraivecido e mais violento com a mosca, ou seria consigo mesmo, pois apenas ele apanhava.
Não se conformava com a situação. Havia tomado banho e posto uma roupa limpa e cheirosa aantes de sair de casa. Não tinha mau hálito (nem sei se isso atrai moscas) e estava até perfumado. Olhoau por todos os cantos para ver se captava alguma outra mosca, um mosquito da dengue que fosse. Nada. Era só aquela. Resolveu pedir a uma senhora que lhe desse uma pancada na cabeça, fosse com o que fosse, assim que percebesse a mosca sentada. A mulher esperou e, meio louca, quebrou um celular em sua nuca. /ele chegou a tontear e ficou irritado:
_ A senhora é louca?
_ Mas foi o senhor que mandou!
_ Ora, dona! Dar uma cacetada dessas com um celular bem na minha nuca... acho que a senhora é mais nociva do que essa mosca.
_ Mal agradecido, deveria fazê-lo pagar-me o celular. Veja como ficou. Arrebentou inteiro nessa cabeça dura..
Deixou a mulher de lado e deu outra bofetada na cara. Gritou até um "filha-da-puta" que chamou a atenção de todo mundo.
_ Está me chamando de filha-da-puta? _ resmungou a mulher maluca,
_ Não, dona. Falava com outra chata, mas me refiro a esta mosca.
_ Chato é o senhor, que não toma banho.
Quando chgou sua vez no caixa, ocorreu o inesperado. A mosca entrou pela pequena abertura de vidro e foi sentar-se no nariz de uma jovem loirinha e bonita que atendia do lado de dentro. Ele demorou uns cinco minutos no caixa e foi embora com pena da moça. Ela se batia, torcia o nariz quando estava com as mãos ocupadas e a a mosca ficou por lá. Levantou-se, foi ao banheiro, mas não teve jeito. A mosca foi e voltou com ela. Aquele dia era o dia da mosca. Se tivesse mosca no jogo do bicho, era jogar e ganhar.
Cairbar Garcia Rodrigues
O que é pior: as ditaduras socialistas do mundo ou as ditaduras midiáticas e econômicas geradas por monstros como os EUA e alguns paises eeuropeus?
Cairbar Garcia Rodrigues
O bom escritor dificilmente terá maus leitores, assim como o verdadeiro poeta somente é percebido (há exceções) após sua morte.
Cairbar Garcia Rodrigues
Se algum dia me encontrarem caído, não me levantem. Não quero correr o risco de cair novamente.
Cairbar Garcia Rodrigues
Entre um home e uma mulher pode ser mais interessante uma amizade para sempre do que uma mera noite de sexo... sem menosprezar o sexo, claro.
Cairbar Garcia Rodrigues
Poemas não são feitos para serem entendidos. Isso é utopia. Basta aos poetas que seus poemas sejam sentidos.
Cairbar Garcia Rodrigues
O alheamento não é um imperativo dos isolacionistas, mas uma necessidade dos que não nascem para ser apenas mais um rês no rebanho,
Cairbar Garcia Rodrigues
MINHA DEMÊNCIA
Não é fácil definir minha personalidade. Não a tenho. Um dia sou uma coisa (coisa literalmente); no outro dia sou outra. Vivo em constante metamorfose reversível, não como o personagem kafkiano que foi se transformando de gente em barata e nunca mais voltou a ser gente. Meu caso é diferente. Um dia me sinto muito gente, grande até. No outro me percebo como uma bosta fedorenta e desprezível. Tudo depende de como consigo aceitar ou não a loucura de um mundo formado por hipócritas, cretinos, violentos e, o que é pior, imbecis, já que, isso tudo somado, dá no que deu essa humanidade que integro, mas que abomino, desde que raríssimos são os que conseguem enxergar o óbvio. Quase todos são como vacas: seguem uns atrás dos outros, sem o cuidado de verem se quem lidera o rebanho tem capacidade para tanto. Mas o pior de tudo é que o mundo se divide em muitas boiadas, quase sempre comandadas por “touros” que se fazem senhores de todos, havendo mesmo aqueles que interferem nos destinos de quase todos os outros rebanhos. E os idiotas que vão atrás, por safadeza (os touros menores); preguiça mental, ou idiotia progressiva (os touros sem berros), sabem que não está bom, mas não se unem para tomar o comando para formar um sistema social onde todos comandem e ninguém mande, ou seja, onde cada um seja dono de si, respeitadas as individualidades para o bem-estar próprio de cada um ou do coletivo.
Isto posto, e como muitos males já me vêm de longa data, desde quando eu mal sabia como escrever uma carta anônima, mas identificável, para a desejável mulher do vizinho, comecei agora, já não muito longe dos finalmente da meia-idade, a perceber que uma certa demência pode aniquilar-me, se eu continuar dando apalpadelas nas bundas flácidas, fedorentas e horríveis dos meios políticos e sociais do mundo e do meu próprio país.
Informar-me já não me atrai com nenhum prazer; me deplora, deprime, convulsiona. A mesmice é um óbice repelente às forças progressistas, e o conservadorismo travestido de liberalismo falseia desavergonhadamente as idéias de um futuro solidário, de uma justiça independente, nunca refém da libertinagem ideológica da ditadura capitalista, do elitismo oligárquico ou individualista que estraçalha os seres de menor força e destrói o planeta a uma velocidade vertiginosa.
Ler as desgraças do mundo é algo que vem de encontrar-me apático, abatido, sem mais vontade de lutar, desde que o mal do ter sempre venceu a dignidade do ser e, à medida que o homem evolui em ciências exatas, ou mais se enfronha nos terrenos das humanidades, mais carrasco ele se torna, porque, paradoxalmente, a sabedoria o torna mais senhor de si e de outrem, prevalecendo mais e mais a falta de escrúpulos, de sentimentos de justiça e de “vergonha na cara”.
Ver e ouvir um político de cargo de comando ou de Leis, ou qualquer outro cargo de alto, médio ou baixo escalão, ocupar postos ilegitimamente (pelo voto da ignorância, por enxertos de recursos corporativistas, pelo dom maldito da palavra, rica de retórica e paupérrima em sentimentos), tanto em meu país quanto em qualquer parte do mundo, chega a causar-me uma sensação de ódio mortal e a tirar-me muitos momentos de sono e de serenidade.
Passo horas a fio analisando injustiças, indiferenças com o terrível sofrimento de bilhões de pessoas subjugadas pelo neoliberalismo nefasto e dadivoso com a cruel macro-economia que destrói o bom senso, que afasta homens sem caráter e nenhum escrúpulo dos problemas que impingem dores inenarráveis aos pouco bafejados pela sorte, ou que não tiveram como alcançar o reino do roubo, da corrupção e da insensibilidade.
Passei muitos anos da minha vida sonhando que um dia eu não veria mais famintos, nem seres como eu vivendo pelas ruas, sem-educação, sem-teto, sem-terras, sem-respeito, sendo violentados em seus legítimos direitos, desde que nascidos seres vivos pensantes.
As classes mas abastadas dão as costas a esses humanos que povoam o mundo em condições piores do que vermes, pois vermes estão sempre em seus devidos lugares. Não lhes interessa, ou por imbecilidade ou por medo de que desiguais se tornem mais iguais, repartir conhecimentos, bens morais e materiais. Então se arvoram de donos do mundo e, embora vão servir de comida para os mesmos vermes que devorarão os miseráveis, ou virarem cinzas num forno crematório, sempre julgam que isso é algo que o dinheiro pode até minorar.
Tudo isto (poderia escrever mil páginas) embalado e, caprichosamente instalado em minha mente, me assusta e me dá sinais inequívocos de que não posso mais pensar. Minha impotência e minha insignificância ante os direitistas mal informados, sempre deu em nada, e agora, embora ainda precocemente, sinto que posso caminhar para uma demência incurável e ficar louco de vez.
Não posso mais tolerar o que vejo nem assimilar o que leio e ouço, sem que estremecimentos me abalem de maneira assustadora. Tenho medo de perder de vez a razão e sucumbir definitivamente.
Assim, é uma questão de lucidez para a sobrevivência o meu afastamento total e irrestrito dos problemas que minha incompetência não me permitem nem permitirão jamais resolver. As forças do mal já contaminaram, combaliram e aparvalharam os cérebros formados sob a égide da moderna barbárie do neoliberalismo.
Está aqui decretado o fim de um contestador, Nada impedindo que novos fatos positivos venham alterar esta minha decisão.
Cairbar Garcia Rodrigues