Adriano Saraiva
Encontrados 21 pensamentos de Adriano Saraiva
NÃO SEI
A imensidão crepuscular da dor
Solitude de um eremita
Ruminando tristezas sem fim
Ciúme, desconfiança e raiva
Os magos do infortúnio
Não apagam vivas memórias
Que cavalgam aos pares pelas
Turvas e espessas matas do sono.
Toda a nossa vida
Navegou entre a
Esperança e o desespero
Linhas longitudinais
Da ilusão e da verdade
A fotografia inerte revive
Lembranças de cálidas paixões
Açoitando inexorável destino.
Te quero ou esqueci?
Não sei...nem sei.
Adriano Saraiva
SAUDADE
O FALO É MEU ESCUDO
A PENA MINHA ESPADA
LUTO PARA ESQUECER
ESTA PAIXÃO SUFOCADA
OPRÓBIO VULGAR
DE INTEMPÉRIES EMOÇÕES
VIL FOGO-FÁTUO
DILACERANDO CORAÇÕES
MAIS QUE MENTIR
MAIS QUE CHORAR
O QUE NÃO CONSIGO
É PARAR DE TE AMAR.
Adriano Saraiva
TEMPESTADE NA METRÓPOLE
Turbulência e fúria
O céu cinzento descarrega sua ira
Os adultos se agridem
As crianças se drogam
A cidade sofre uma hemorragia
Mas a chuva trata de varrer o sangue.
Adriano Saraiva
VICISSITUDES DA VIDA
Falaciosa sensação de tranqüilidade
Aprazível quietude maviosa
A cuspir na cara toda a sua resignação.
Lassidão e penumbra
Refúgio de toda a escória do inferno.
No amplexo inconsciente do sono
Ela descansa suas formas voluptuosas,
Sonha com a felicidade inocente das crianças
Que sequer criaram as esperanças
Que futuramente irão perder.
Drogada, bêbada, ladra, puta
Toda a sua vida desintegrou-se em
Atos de vampirismo na calada da noite.
No quarto conversas melancólicas e desconexas
A porta está aberta a qualquer um
Que deseje saciar seu apetite sexual.
Adriano Saraiva
REFLEXÕES SOBRE UM AMOR IMPROVÁVEL
Intangível para mim é teu amor, e corpo também
nem ao tempo a esperança pertence
amor, sexo, luxúria e desejo meu
infinitas vezes quisera
acariciar teus cabelos e com
recebimento de um beijo roubado
afagar tua pele com fervor
Enquanto isso a vida continua
Inacabada
Inalterada
Inacessível...
Adriano Saraiva
CAMOMILLA
(OU A BALA DE MENTA)
Adorável fêmea
Ninfeta e mulher
Realiza meus fetiches
Da liga ao espartilho
E eu?
Com a bala na boca
E a boca no sexo
Refrescando teu ventre
Enquanto o mundo queima lá fora!
Adriano Saraiva
LICANTROPIA
Sendo eu um lobisomem
Não ei de me atrelar
Pois mais cedo ou mais tarde
A lua cheia vai chegar
Quero ser livre e
Sentir meu corpo ao vento
Desfrutar a liberdade
Poder viver cada momento
Bicho ou homem qualquer
Não pode viver enjaulado
No cárcere de um só mulher
Contos de sangue da vida legítima
Na mutação da noite escura
O lobo fareja a próxima vítima.
Adriano Saraiva
UMA LÁGRIMA DE AGONIA
Digressões cambaleantes
Em meio a prantos
Sinto a tempestade de minha alma
Inverossímil conjectura
De dor e tristeza
Que olhos buliçosos
Não conseguem ocultar
O tempo que me resta é exíguo
E maior que a mágoa é o vácuo
As feridas saram
O nada me anula
Sorrateira e perspicaz
Ela se aproxima
E com seu toque benevolente
Dissipa as nuvens de esperança
Sou uma deplorável criatura de Deus
Que a morte leva sem deixar
Lástima, saudade ou lembrança.
Adriano Saraiva
LÂMPADA MARAVILHOSA
Se a lâmpada do gênio eu achasse
Pediria a ele que um amor me encontrasse
Apaziguar este coração partido
Que a tanto tempo tem sofrido
Outros muitos iriam dizer:
Peço jóias, riqueza, poder
Responderia que um amor verdadeiro
Vale mais que qualquer dinheiro.
Adriano Saraiva
OPRESSÃO E DOR
"...porque os remédios normais
nem sempre amenizam a pressão..."
(O RAPPA)
Ela veste o casaco de couro negro
A saia curta e as meias rendadas
Abre uma garrafa de vodca
E passa a odiar cada minuto dos
Seus quinze anos de vida
A maquiagem sombria e o brinco no nariz
São suas armas de defesa
Contra a podridão do mundo
Enquanto ouve o Rappa no rádio
Lembra a origem da criança
Que carrega na barriga
Fruto de um, dos vários
Estupros de seu padrasto
No fundo queria apenas ser um anjo
A voar sobre um mundo rude e primitivo
Ser a esperança etérea da justiça
Pulou da janela do oitavo andar
Planou como um pássaro e encontrou
A paz no momento em que seu corpo
Atingiu o solo.
Adriano Saraiva
CONSUMIDORES DE LIXO
É tudo naturalmente artificial
Oferta de sonhos e sucessos
O que é real?
O mundo da moda ou o prato vazio?
Fictícia pode ser a alegria,
Vulnerável protótipo de uma
Sociedade decadente que insiste
Em vender o que não pode ser comprado
Pior que não poder comprar
É achar que precisamos nos
Entupir de lixo para sermos felizes!
Adriano Saraiva
TÉDIO
Mais uma entre tantas noites
Angústia e ansiedade
Abjetas irmãs da solidão
Sofismas de uma nulidade pessoal
Vida! Oblitera teu curso
Para não mais cingir
Insigne resignação.
O álcool carcome
Os restos da dignidade
Do viajante noturno
Um vício assumido
Mas não assimilado
Simulacro de alegria
Celeuma de imagens retorcidas.
Adriano Saraiva
A FÚRIA DO LOBO
"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso." (Mário Quintana)
Ontem eu vi!
Uma menina buscando alimento
Em sacos de lixo jogados na rua.
O que eu vi todos já viram!
Sobrevivência com restos
Dieta de produtos vencidos e podres
A tristeza degradante de
Fantoches escravizados por
Uma elite gananciosa e excludente
Por que a vida não
É para todos? ou a
Idiotice humana só
Admite a felicidade como
reciprocidade da desgraça alheia?
Tudo muda, exceto o fato de
Existirem vencedores e vencidos
Mas o que mais me entristece
É saber que somos parceiros
Na construção desta sociedade
Até quando? Qual é nosso limite?
Trabalho escravo, prostituição infantil,
Violência em todos os níveis, corrupção
Justiça que só pende para um lado...
O homem subjugado pelo homem
Oh! pátria amada
Madrasta obsequiosa
Sustenta tua opulência
À custa da carnificina do teu povo
Que porra de país é esse?
Adriano Saraiva
SHEILA
Numa noite de inverno rigoroso
E de densa bruma oculta
Te descobri...
Forma exuberante de mulher
A passear seus atributos
Pelo centro de cidade
Exonerado de meus sentidos
Procurei abrigo no teu corpo
Sem guerra de palavras
Somente o equinócio milenar
Das tuas pernas
A me confundir num
Emaranhado de sensualidade
Somos amantes furtivos
No regozijo do prazer
Qua a terra estremeça
Qua a humanidade desmorone
E que reis se ajoelhem
Diante do nosso ato de amor!
Para você esposa amante companheira de tantas e tantas obscenidades.
Adriano Saraiva
EMPATIA ENCARNADA
Quem sou? Não importa
O fato é que estou
Vagando a esmo
Sem noção de tempo
Eras eclodindo em
Sucessivas progressões insanas
Absorvo emoções
Uma empatia de ajuda
Onde a divisão do fardo
Resulta na partilha da dor
Não sei bem como isso funciona
Sinto-me como uma lata de lixo etérea
Onde todos sentimentos degradantes
Se alojam e ferem
Um buraco negro perdido no cosmo
Que suga detritos sentimentais
Ódio, ganância, inveja, medo
Cobiça, tristeza e vizinhos...
Não posso mais suportar
Sou um viajante do nada
A latrina das emoções humanas
O guardião da histeria e da loucura!
Adriano Saraiva
MEMÓRIAS
Tenho lembranças
De belos momentos
Que nunca existiram!
Adriano Saraiva
M de MEMEL
A responsabilidade chegou
Esta estrela minha vida iluminou
Amor intenso e diferente
Coração acelera e não mente
Três letras de amor
Doce e pura MEL
Agradeço a Deus o louvor
Do feliz girar do carrossel
Sorriso inocente
Marota e moleca
Alegra a alma da gente
Melhor que o prêmio da loteca
Não que eu queira ser diferente
É ser pai desta menina sapeca.
Adriano Saraiva
DUAS VEZES NÓS
É noite de lua cheia
Sentado na areia
Converso com o mar
Grito alto: quero voar
Preciso de liberdade
Sou refém da tua vontade
E...
Prisioneiro dos teus desejos.
Adriano Saraiva
POESIA E PROZAC
A gota d'água que transbordou
Um oceano de frustrações
O apodrecimento de frutos sazonados
Que despencam da árvore
Para se espatifarem no solo.
Bancário arrogante
Pretensioso escritor sem talento
Mais uma medíocre alma
A vagar por um mundo insano
Enquanto meus trabalhos literários
Eram devolvidos sucessivamente e
Se acumulavam numa montanha de tristezas
Ela experimentava muitos ricos
Aziagos pensamentos
A me fustigarem o orgulho
Na companhia do Prozac
Buscava as respostas
Nas garrafas de Jack Daniels
Adriano Saraiva
BIZARRO
Bicha gordona
Negrão maconheiro
Maloqueira sapatona
Pobre, burro e ladrão
Ateu dos infernos!
Quando vamos nos respeitar como seres humanos?
Adriano Saraiva
NASCE MORGANA
Sua vida...
Fétida, apodrecida e jogada no fundo de uma lata de lixo.
Corolário de um sonho esquecido.
Maria José acumulava desilusões sucessivas
Um oceano de frustrações
Lavar roupa para fora
Sustentar as bebedeiras do marido
Aceitar submissa os espancamentos
Do homem que corpatilhava sua cama
Ódio a queimar suas entranhas
Os únicos adjetivos que recebia
Vaca, fofoqueira e puta
Puta? logo ela que nunca conhecera outro homem
Ajoelhou-se diante da Virgem
Entabulou uma oração decorada e sem sentido
Rezou e não se sentiu melhor
Num ato a estátua no chão
Diante do espelho a imagem...
Uma velha de vinte e sete anos
No quarto o homem
Alcoolizado e desmaiado
Fogo e labaredas
A pobre casinha de madeira sucumbiu
Às chamas enraivecidas
De longe um sorriso e um olhar
Morre Maria José
Nasce Morgana
Adriano Saraiva